Tudo posso naquilo que me conduz

Na construção das coisas compreensíveis e não compreensíveis no século XXI, a linguagem da arte não é um conjunto de signos dependentes, uniformes e lisos, “onde as coisas viriam refletir-se como num espelho para anunciar, uma por uma, a sua verdade singular. É antes uma coisa opaca, misteriosa, cerrada sobre si mesma, massa fragmentada e totalmente enigmática, que se mistura aqui e ali às figuras do mundo, e com elas se confunde: tanto é assim que, todas juntas, formam uma rede em que cada uma pode desempenhar, e com efeito desempenha em relação a todas as outras, o papel de conteúdo ou de signo, de segredo ou de indicação”.

E pode, até mesmo, não fazer sentido algum. E ainda sim, se nos inquieta, se perturba ou se provoca estranhamento, é um bom sinal de efetividade em nos fazer refletir sobre aquilo que não conhecemos e que desperta curiosidade.

Tudo podemos naquilo que nos conduz à inquietação que, antes de tudo, nos faz buscar a compreensão daquilo que não entendemos. É expressa no desejo por guardar coisas com sentido e sem sentido, conhecidas e desconhecidas, com forma e sem forma. E, por fim, com conteúdo e sem conteúdo.

Tudo isso para comentar o trabalho de Hugo Curti, que parece estar sempre em movimento, que pertence à categoria dos artistas acumuladores e arquivistas que guardam coisas como figuras do mundo, formando um conjunto de signos, índices de memória, objetos com e sem formas definidas em uma espécie de museu de curiosidades, como aqueles dos séculos XVII e XVIII – em uma época que se descobria o mundo. É nisso que se transformou seu ateliê de criação.

Depois de encontrar esses objetos ou, simplesmente, essas coisas, e levá-las para dentro de suas estantes, mesas, armários e caixas, as traz de volta ressignificadas como objetos de arte.
Busca aqui, busca ali. Vai encontrando e traz para o seu ateliê uma espécie de arqueologia que povoa os lugares com vestígios de civilização. Não à toa sua formação é em Geologia. Revela uma essência de pesquisador e cientista nesse método contínuo de recolher, guardar e fazer coisas. Estuda fragmentos e formas que encontra e, depois, as junta com o que cria e inventa em novos formatos.

É assim que trabalha: criando uma atmosfera surreal na ressignificação desses objetos, utilizando-se das técnicas tradicionais como esculpir, fotografar, gravar e pintar. Como na obra de artistas surrealistas, interessados no conteúdo onírico das figurações e das coisas.

São trabalhos que, além de explorar novas dimensões para à frente dos suportes tradicionais, tentam, por meio do universo surreal e subjetivo, expandir a imaginação do espectador para a multiplicidade de relações e associações possíveis, existentes entre essas coisas e as formas que inventa, grava e fotografa. E, assim, a poética onírica da obra desperta uma nova maneira de ver o mundo descoberta pelos surrealistas, que ultrapassa os limites da racionalidade e da funcionalidade, invocando a fantasia como instrumento para a interpretação.

Quando pensamos em surrealidade, logo temos a ideia de uma arte que extrapola os limites do racionalismo, daquilo que é compreensível. De fato, o termo surrealismo, cunhado pelo poeta e pintor André Breton, traz um sentido de afastamento da realidade comum e nos aproxima daquilo que não faz sentido algum. Na teoria do autor do manifesto, a arte surrealista procura resolver a contradição vigente até aquele momento, entre sonho e realidade por meio da criação de uma outra realidade, não tão absoluta, em que os artistas valorizam o mundo onírico e o irracional – o nosso inconsciente, aquilo que é inexplicável e não faz sentido em outras palavras.

A arte tem disso. É assim que Hugo Curti vai acumulando e criando. Tornam-se os índices da sua passagem por esses lugares onde desenvolve sua obra. Trabalha com o entorno. São coisas encontradas no seu caminho e ao seu redor que lhe despertam o interesse visual e o olhar através da memória. Pode ser uma pedra, um pedaço de madeira, um caco de vidro que recolhe e depois junta formando um conjunto de coisas, muitas vezes, portanto, inexplicáveis, que tomam esse ar surreal.

Parte desses objetos e coisas perderam o uso e se tornaram restos sem sentido. Essa é a verdade. São registro e rastros de vidas passadas nesses lugares que transita. Uma simples pedra lapidada pelo tempo e abandonada no caminho lhe desperta a curiosidade de recolhê-la e guardá-la.

São objetos que o artista recolhe e depois arquiva lhes dando sobrevida, aí sim, como objetos de arte. Faz com esse gesto, ou melhor, transforma esse gesto em uma espécie de museificação, de transformação, dos objetos-coisas, tornando-os registros museais ao recontextualizá-los como arte. É uma forma apaixonada de preservação e de conservação desses sinais, fragmentos e imagens do passado e do presente.

São da categoria das assemblages escultóricas, mostradas sobre pedestais de ferro, que, quando agrupadas, transformam-se numa floresta mágica. Fotografias, gravuras, formas sedosas, arredondadas, orgânicas e de construção, inspiradas nas formas que encontra em outros objetos. E, ainda, os registra e os transforma em fotografias ampliadas em papel algodão, conferindo-lhes uma textura aveludada, uma imagem profunda, surreal, meio fantástica, que revelada e ampliada em grandes dimensões, nos joga para esse desconhecido das formas e sentidos, um mergulho no subconsciente, com os quais trabalha.

Não fazem sentido, são apenas figuras do mundo compondo uma espécie de natureza morta ao serem enquadradas em suas fotografias.

Hugo Curti leva essas partes, objetos e formas que no interior do seu ateliê se misturam com livros, fotografias, objetos pessoais, bichos empalhados, equipamento de impressão fotográfica, papéis, telas, cavalete e câmeras fotográficas, rearranjados de maneira expositiva para a sua primeira individual na Emmathomas Galeria.

Mas tudo parece compor um desarranjo visual na verdade, intencional. Sem a organização original, o ambiente atmosférico do ateliê, agora levado para exposição, parece ainda mais fantástico. Cria situações ou condições especiais de registro com características do mundo da ilusão. Lugar para tudo aquilo que não encontramos explicações plausíveis ou compreensíveis.

Todo conjunto de coisas e situações que encontrava lugar dentro do seu ateliê, agora são postos em pedestais de ferro, especialmente desenhados e construídos para configurar uma “pequena floresta”, juntando-os com outros objetos e esculturas – essas feitas e moldadas em material esponjoso, leve e maleável – compondo uma instalação logo na entrada da galeria. Esculpe formas orgânicas como gotas ou chamas de coloração amarelada, escorridas e de textura aveludada. Agradáveis ao olhar tátil que pousamos sobre elas.

Esse mundo visível que Hugo Curti apresenta na mostra Tudo posso naquilo que me conduz é o que é. O artista age sobre a aparência visível desses registros como se dedicasse a desfazer-se da aparência de banalidade ao depositá-los, ao observá-los e ao percebê-los em seus habitats naturais e originários. Nesse deslocamento que faz do objeto do seu ateliê para a sala de exposição, nada mais é do que direcionar o nosso olhar para os objetos, destacando-os sobre os pedestais totêmicos e emaranhados no espaço. Recusa qualquer ação sobre eles, afinal, estão sobre os pedestais museificados. Mas, ao expô-los dessa forma, desnudando-os o bastante para descobrir esse lugar secreto do inconsciente do artista, que também carregamos dentro de nós, onde guardamos também nossas imagens visuais, olfativas e táteis das coisas estranhas do mundo.

São dezenas delas organizadas, aparentemente, de forma aleatória no espaço. Agrupadas em um canto da sala expositiva em fundo negro que confere ao lugar o sentido de infinito. A representação do buraco negro sem fim do universo que habitamos.

Uma série de quatro fotografias feitas a partir dessas esculturas ou assemblages, juntando objetos residuais recolhidos com essas formas orgânicas e aveludadas compõem o outro lado, como se fosse um zoom sobre as formas pousadas nos pedestais que integram essa “floresta” onírica, trazendo para a galeria expositiva, novamente, a visualidade dos antigos gabinetes de curiosidades.
Encontrar Hugo Curti no seu ateliê é como se voltássemos no tempo, na antiga Fábrica São Pedro, em Itu, no interior de São Paulo. É onde trabalha e é ali atualmente que encontra o que sobrou da ação do tempo sobre essa edificação. Resistências e isolantes elétricos feitos de cerâmica são alguns dos materiais encontrados nos escombros dessa fábrica de tecidos de 1911.

A velha edificação está localizada no centro da cidade, no estilo das construções do final do século XIX e do começo do XX, de tijolos aparentes. É onde o artista mantém o seu espaço e lugar da criação. De certo modo, a fantasmagoria da fábrica fornece matéria-prima para o conteúdo de sua obra artística.

Na mostra na Emmathomas, Curti organiza sobre uma parede expositiva uma espécie de revista de diversidades. Exprime com a organização espacial o funcionamento real do seu pensamento de juntar partes e fragmentos do quotidiano em pedaços de papel, imagens, fotografias para formar narrativas. Junta imagens próprias e apropriadas com gravuras em metal de formas que lembram aquelas vistas nas esculturas. Algo meio abstratas, algo meio figurativas. Disformes mas com forma.

Sempre que Hugo Curti se aproxima, não há como não se contagiar com o seu jeito tranquilo, silencioso e de gestos comedidos, característicos de sua personalidade. Com os olhos bem azuis que expressam a profundidade de sua empolgação na criação de sua obra, ele é antes um fazedor de tudo. Está sempre construindo algo, oferecendo alguma coisa, experimentando formas ou buscando algum objeto-coisa.

Está, nada mais do que isso, em busca de soluções para essa equação infinita em que “tudo pode naquilo que lhe conduz”.

Ricardo Resende
Curador – Fundação Marcos Amaro
Diretor Artístico – Galeria Emmathomas

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