Hugo Curti – Eu, o Outro e o Olho.

A maleabilidade da pesquisa artística de Hugo Curti projeta-se na incompletude de si mesma sem diluir a contundente solidez conceitual e espacial. Processos de processos que vão criando sólidas e tensionadoras camadas interdisciplinares.

Na exposição no SUBSOLO – Laboratório de Arte durante a pandemia de 2020, organizam-se seis recortes da pesquisa que discutem e irradiam ferramentas para associá-las com a vasta pesquisa de Curti. Enfrenta-se nesses processos de pesquisas a parceria artista/curador adirecionalmente, como prioridade referencial de respeito e transparência entre agentes artísticos contemporâneos.

Hugo Curti apresenta em sua exposição negativos de fotografias em vidro, vídeos, objetos e instalações. Geólogo por formação, coletor e projetor por intuição, artista por convicção, Curti desenvolve uma pesquisa artística que envolve a interdisciplinaridade que transita por diversas vertentes e áreas do conhecimento, e que convergem na construção de obras de arte repletas de significados do mundo, da vida, seja fotografando, filmando, pintando, gravando e, também, na arte extramuros. Ou ainda, como outros grandes artistas nacionais e internacionais, ao criar suas joias como obras de arte.

Logo na sala principal está exposta “Mnemosyne – minha contribuição”, 2020, instalação que como um gabinete de curiosidades é composta por partes que se encaixam e se projetam, apesar de suas formas, dimensões, modalidades, suportes e edições diferentes. Memória, apropriações, identidade, política da arte para ser explorada desde infinitas leituras. A disposição expográfica dos manifestos visuais, que estruturam a instalação exposta em ângulo de 90 graus e em fundo branco, potencializam essas leituras e convicções no espectador.

Na instalação em questão, vivencia-se a forma que a pesquisa de Curti se desencadeia e pode ser exemplificada como uma de suas hipóteses não convencionais. Ao se questionar sobre a ideia de fotografar coisas que não fossem identificáveis, mas que seriam comuns a todo mundo, como os esqueletos, veio a ideia de fotografar a pele pelo lado de dentro, a epiderme. Com a necessidade de atender seus questionamentos, ele parte em busca de um taxidermista, mas ao conhecer os procedimentos e o local onde se reconstrói animais, ele acaba por ampliar sua pesquisa e já não está mais satisfeito em verificar só o que tem no verso da pele. Neste ponto ele passa a explora o local e a criar obras com o conhecimento adquirido, chegando à conclusão de que o animal selvagem ali empalhado é um objeto. Assim, em seus registros, Curti não constrói cenários como o habitat daquele ser, ao contrário, ele o fotografa em um ambiente doméstico, mesmo que aquela imagem pareça um absurdo. Pois é aí que está o tensionamento, a provocação.

Em outra parede daquela mesma sala aparece outra instalação intitulada “O caminho do meio”, 2020, gerada a partir de pranchas de tiro ao alvo com a grafia da Associação Paulista de Tiro. Aqui o artista explora o seu entorno para criar sua cartografia, e nisso ele mixa filosofia, pintura, fotografia, gravura, escultura e coloca em xeque as relações interpretativas do tiro ao alvo nas culturas ocidentais e orientais. A inserção do livro “A arte cavalheiresca do arqueiro zen” acentua essas tensões culturais de interpretação. “Não importa onde o dardo acerta, mas sim o que o dardo traz no movimento de volta”, coloca Curti. E é com essas observações que ele se nutre, e eu questiono: será que não há uma relação entre as marcas dos dardos nos alvos com as fisionomias das joias?

Na instalação (site specific) que dá título à exposição “Eu, o Outro e o Olho”, 2020, uma das paredes foi pintada especialmente na cor amarela para receber a impressão digital do torso do artista em tamanho natural e uma caixa onde estão “seus olhos de vidro”. A cor faz parte tanto da impressão digital como da parede que a recebe e automaticamente se insere na instalação estabelecendo uma “adequação” discursiva intencional da obra de arte constituída ao espaço arquitetônico, o que chamamos de display, construindo tensões ao ser movida de um lugar para outro, mas, ao mesmo tempo, se adaptando aos novos receptáculos: obra de arte, artista, espaço arquitetônico, espectador… Assim sendo, Curti não traz consigo a poética do “eu”, mesmo que essa seja uma obra de autorretrato, ele ultrapassa essa lógica recorrente e distorcida na arte contemporânea do “eu romântico” para projetar diversas e contundentes leituras a partir do contato do espectador com esse manifesto visual.

“Aviões”, 2020, é formado por nove impressões digitais sobre papel de gravura e óleo, criadas a partir de negativos em vidro com cerca de 80 anos. Curti conta que esses negativos foram dados a ele pelo pai quando tinha por volta de 12 anos de idade. “Para mim, que sonhava sempre que estava voando foi o máximo. Mas, somente agora, depois de mais de 45 anos carregando essa caixa de um lago para outro, descobri que são imagens das aeronaves fabricadas pela antiga metalúrgica Laminação Nacional de Metais entre 1942 e 1949, em São Paulo. Então, o que posso dizer é que as fotografias nos trazem registros, mas nós criamos a história”, reflete o artista.

Em um aparelho de TV na área da biblioteca do Subsolo é apresentado o vídeo “Nem tão ao norte – nem tão ao sul”, 2016, realizado por Curti na sua busca pelo centro do mundo durante o equinócio em 20 de março em Macapá, no estado do Amapá, a única capital brasileira cortada pela linha “imaginária” do Equador.

Por fim,  esta exposição é um recorte da pesquisa de Curti, já que ela é muito rica ao  artista que transita por diversas áreas de pesquisa e consegue editar projetos eloquentes de cada uma delas ou ao amalgamar todas elas. E talvez tenha sido esse “acúmulo” de informações, conhecimento, coleções que tenha provocado essa parceria entre artista e curador, tendo este último encontrado no atelier de Curti uma infinidade de objetos domésticos, bichos empalhados, lembranças de viagens, obras de arte, materiais de várias composições ficando evidente  que é ali que o artista se “nutre”. É em um cotidiano imerso em referências que ele obtém o suporte para expandir sua pesquisa ampliando seu horizonte relacional e sensorial. Remetendo, com sua devida atualização conceitual e espacial, a um gabinete de curiosidades. Ou seja, hoje, um gabinete contemporâneo para pesquisas artísticas particulares. Existe, por parte de Curti, uma busca constante com uma profundidade que atravessa fronteiras físicas.  Há sempre a possibilidade de se agregar novas pesquisas independente dos suportes físicos.

 

Andrés I. M. Hernández

Curador.

Campinas/São Paulo, Primavera, 2020

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